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Opinião

A real política está nas brechas e não no espetáculo

A real política está nas brechas e não no espetáculo
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Diante do momento político que vivemos (polarizado com mais intensidade desde a campanha presidencial de 2018, pautado em critérios difusos, embasado por pesos e medidas distintos, em que se elege o bom e o mau a cada novidade do noticiário), é nítida a espetacularização criada ao redor de nós mesmos.

O espetáculo, aliás, sempre esteve presente nos momentos mais tensos de nossa democracia, mas nem todos percebem ou se atentam ao grande teatro.

Claro que as divergências existem, que os caminhos ideológicos se cruzam ou se repelem, mas a política real, do dia a dia, que deve construir meios de consenso e debate por uma sociedade ao menos mais organizada, que represente todos de certa forma, não é a do espetáculo noticiado, não é a da guerra virtual ou das correntes ainda fakes do WhatsApp.

Enquanto se arma o circo (não por todos os agentes políticos, mas por boa parte deles, da grande mídia e dos eleitores), ainda há brechas que nos permitem agir verdadeiramente e que levam à ponta de tudo (portanto, às pessoas e trabalhadores), acesso aos seus direitos. 

Enquanto temos um presidente eleito que se ampara no apoio de uma militância virtual e na tal ‘guerra’ entre direita e esquerda, parlamentares no Congresso não vestem necessariamente as camisas da mesma guerra criada: eles articulam, sob outros critérios que não ideológicos preferencialmente, para consensurar ou não sobre quaisquer que sejam os temas colocados como urgentes ao Brasil.

Ou seja, a real política é a que depende dessa construção e deveria ser aquela que chega até a população.

A falta dela e de nossa percepção sobre ela pode explicar a alta popularidade de um governante nas redes e sua rejeição nas ruas.

Digo isso porque diante de um País cujo histórico nos traz dois impeachments nas costas, não é possível mais acreditarmos, como eleitores, que somos peças fora deste teatro ou que textões de briga na internet nos farão agentes de transformação.

Assim como não se pode acreditar, como político, que o Twitter salvará um mandato ruim.

A realidade é mais dura que isso.

O espetáculo não se sustenta por tanto tempo se tomarmos consciência dele. 

Não digo que não valham as discussões, sejam virtuais ou nas mesas de bar.

O que digo é que temos que perder o romantismo de entendermos a política restrita a uma única parte do espetáculo.

Muitos, nessa guerra criada, falam para si mesmos, para os mesmos grupos fechados que não se interessam em dialogar.

Os movimentos de esquerda se fecham e de direita também, quando na vida real, só avançaremos com alguma causa legitimamente se soubermos colocar essa pauta na mesa de todos, o que só será possível na construção.

A falta de habilidade em construir, articular, ceder e avançar, também foi uma das causas do nosso histórico recente de ‘desgovernos’, atados também pela espetacularização.

Se tomarmos como exemplo os municípios, esquecidos geralmente mas que são os ‘peões’ da democracia, saberemos que as brechas são muitas.

Caímos no erro de, muitas vezes, reproduzir discursos partidários limitados e nacionais a um território muito mais complexo, que tem a própria história, as próprias características e que precisam ser consideradas.

Ao entendermos nosso cenário local, as brechas para uma política real estarão, por exemplo, na criação de leis por parte de vereadores que atendam de fato as necessidades das mulheres nos serviços públicos por exemplo (acesso às vagas em creche, espaços para amamentação).

A brecha estará em um município discutir a saúde mental, com programas que não permitam retrocesso pretendido de forma nacional; ou em parcerias que mantenham condições de oferta de emprego mesmo na recessão; ela estará na resistência por parte de quem atua diariamente por melhor oferta na merenda escolar de alimentos frescos e não permitirá que isso mude.

A brecha estará, muitas vezes, em discussões locais difíceis, que não terão vitória no primeiro momento, mas que levantarão a questão e permitirão, a longo prazo, outro entendimento sobre aquilo. 

A luta por essas brechas é real e nada fácil, mas é o que nos mostra o caminho.

Haverá momentos de derrota, de muita dificuldade, mas as tentativas cotidianas por atenção às demandas de tantos na sociedade é que coloca em prática eficaz talvez toda a ideologia descartada somente na internet.

  Porque a política também é ou deveria ser ouvir e não simplesmente querer implantar os pontos da cartilha.

Para qualquer que seja o lado, isso é imposição.

A polarização que vivemos só nos trouxe uma renovação de discursos vazios que buscam se opor e alimentar o mesmo espetáculo.

Claro que há muitos novos eleitos no Congresso ou Assembleias, infelizmente ainda poucos, qualificados e preocupados com que o País ande.

A estes poucos, manifesto meu apoio por entenderem que pautas necessárias, das minorias aos grandes, não precisam ser propriedade de uma única sigla.

Essas pautas, de fato urgentes, precisam ser de todos nós e só conseguiremos se fugirmos das luzes que nos cegam do palco. 

Autor

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Raquel Loboda Biondi

Jornalista formada pela PUC-SP. Foi repórter do Jornal de Jundiaí, cobriu política até 2016. Atualmente é assessora legislativa na Câmara Municipal de Jundiaí.

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