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Opinião

A força na delicadeza

A força na delicadeza
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Em tempos em que ninguém se escuta como o que vivemos hoje, gritar mais alto parece ser até mesmo necessário, além de muito compreensível, porém acho que justamente, neste contexto, deixamos sumir meios cotidianos e bastante eficazes de fazermos a diferença de modo também sutil e legítimo, delicado e assertivo, doce e forte.

Sejam nas brechas que nos deixam, nos pequenos gestos ou no peso da argumentação, é possível enfrentar o mundo, mesmo quando parecemos frágeis. Escolho esse tema para abordar nesta coluna - o da força na delicadeza - depois da tão comentada atuação da deputada federal Tábata Amaral perante às inconsistências do atual ministro da Educação em apresentação à Câmara Federal. Não trato aqui do mérito de A ou C, de preferência partidária, muito menos eleitoral.

Quero tratar do peso de um discurso como o dela conseguir desmontar (não somente o ministro), mas preconceitos e rótulos que muitas mulheres carregam, sobretudo, no meio político: aquele rótulo de que elas/nós não seriam fortes o suficiente para fazer o papel que o senso comum ainda maciçamente julga e atribui como correto a um único formato, o masculino. A repercussão desse encontro ‘deputadaXministro’ nos traz a reflexão, ou deveria trazer, de que é possível sim termos atuações femininas firmes na política e em seus diversos modos plurais.

Na realidade, que a atuação feminina é mais que possível, e, portanto, uma realidade, já sabemos - apesar de ainda termos barreiras, pouca participação no pleito eleitoral a despeito de sermos maioria no eleitorado. O que nos falta perceber, acredito, é que não há uma única fórmula para ser mulher na política.

Quero dizer, quanto já se ouviu que tal mulher ‘não aguenta’, ‘é frágil’, ‘será engolida’ pela dinâmica de Brasília ou de qualquer que seja o ambiente de articulação.

Por mais avanços que tenhamos neste e em todo ambiente (empresarial, público ou privado), ainda ouvimos questionamentos sobre nossa habilidade em lidar com o que nos propomos a fazer. E esse ‘subestimar’ não se restringe apenas ao olhar dos homens (ou de boa parte deles para sermos justos), pelo contrário, são muitas as mulheres que ainda questionam às outras o quanto elas são capazes, mas esquecem, infelizmente, que dessa forma, diminuem a si mesmas. Sabemos das lutas distintas das mulheres, das condições distintas em que - por mais unidas e solidárias - tivemos em nossas trajetórias.

E, de fato, temos que ter respeito pelo que dizemos e dizem as nossas de acordo com suas vivências.

Porém, não podemos exigir, em uma democracia, que apenas uma luta feminina seja legítima, que apenas um discurso valha ser ouvido, que apenas quem for exatamente igual a outra possa representá-la.

Discordo dessas máximas porque na prática da vida política as brechas são chances de ouro, são como conseguir espaço a duras penas sem precisar gritar. O que tivemos com a atuação de Tábata foi mais que uma brecha, foi uma oportunidade e a demonstração de responsabilidade com o cargo que se ocupa.

Desmerecer essa postura legítima de quem conseguiu chegar onde chegou com a própria personalidade, com esse mesmo modo delicado já desmerecido por muitos em algum momento, é não entender o momento em que vivemos, em que toda forma de nos fazermos ouvidas vale muito. Que sejamos ouvidas todas, pelas diferentes formas que naturalmente teremos de dizer.

Ninguém está se apropriando de causa alguma quando o teor da conversa for de respeito, responsabilidade e não de oportunismo.

O oportunismo é evidente quando acontece e precisamos saber discernir.

Fechamos nossas bolhas de tal forma que não aplaudimos aquelas que, a seu modo digno, tentam quebrar também barreiras e rótulos.

Temos que nos aplaudir de pé e cientes de que estamos contribuindo para os espaços de umas às outras. Certamente que cada uma saberá dizer com toda propriedade sobre o seu lugar, sobre o que representa, mas isso não pode nos reprimir a ponto de que não possamos ser solidárias, termos a tal sororidade e cavarmos vozes firmes juntas, que não possamos apreciar nossas diferenças e a força delas juntas. O modo delicado não está protegido de fragilidades, porque nem os mais fortes e agressivos estão isentos delas.

Todos temos as nossas limitações e o bonito é poder falar sobre os limites e superarmos o que for com coragem.

Ser delicada, feminina e dizer o que precisa ser dito dessa forma, com respeito ao próprio modo, também é um ato de coragem e a esse ato, dedico essa coluna.

Dedico essa coluna a quem queira dizer por nós e por tantos, a quem mostra força todos os dias de inúmeros jeitos próprios e verdadeiros, porque este caminho não é fácil e merece ser visto.

Autor

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Raquel Loboda Biondi

Jornalista formada pela PUC-SP. Foi repórter do Jornal de Jundiaí, cobriu política até 2016. Atualmente é assessora legislativa na Câmara Municipal de Jundiaí.

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