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Opinião

Nossas necessidades não precisam de únicos donos, nem nossos partidos precisam ser caricatos.

Nossas necessidades não precisam de únicos donos, nem nossos partidos precisam ser caricatos.
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Entre os inúmeros aprendizados que a política nos proporciona - apesar de ser tão associada ao que é ruim - deveria estar aquele positivo de nos desafiarmos a não ‘comprarmos’ únicas histórias, de não deixarmos sermos encaixados em prateleiras que não compreendam nossas complexidades ou de não deixarmos que se apropriem com exclusividade de pautas que são de todos e não apenas do partido A ou B. Porque a política, em sua essência, é a conexão na mistura, nas diversidades, nos conflitos. No entanto, penamos atualmente para nos abrirmos a esse aprendizado.   
 
 
Neste momento bilateral que vivemos, sobretudo após as eleições gerais de 2018, - talvez fragmentado em tantas mais partes que em duas, porém, mascarado superficialmente em apenas dois lados para escolher -, permitimos que uma polarização forçada só nos prejudique: perdemos o avanço de agendas que, como nós, também não deveriam estar reféns a ‘únicos donos’.
 
 
Sabemos que a divisão entre lados que se opõem não é exclusiva deste tempo, nem contexto. Ao Brasil, sempre coube algum espaço de polarização nos últimos pleitos eleitorais e as roupagens ideológicas têm seus papéis a cumprir legitimamente nessas disputas, mas talvez seja um primeiro cenário (ao menos, pessoalmente, para parte da minha geração que quando criança assistiu a um impeachment nos anos 90 e que, depois, se vê adulta em um segundo processo de destituição de presidente nos anos 2000), em que parece nos restar elementos rasos para assumir os lados que nos oferecem e que se discutirmos qualquer assunto que, até então, tenha sido apadrinhado por um desses lados necessariamente já somos classificados de alguma outra forma que até enfraquece as tentativas de erguer a voz.
 
 
E o problema aqui não é a existência dos partidos. Essa desconstrução do sistema partidário tentada por grupos que buscam fazer parte da política na afirmação contraditória do apolítico também não nos leva a nenhum lugar tendo em vista a maneira como ainda nos organizamos. Os partidos são essenciais quando bem conduzidos. O problema - além de uma reestruturação crítica das legendas naturalmente - são as agendas não poderem se aproximar. O problema é a distância, é a barreira, sobretudo, ao reforçarmos enquanto sociedade que determinados temas só podem ser levantados pelas siglas X ou Y. O problema é o senso comum que continua a cegar mesmo aqueles que têm condições de transpor esse nível. 
 
 
Diante deste cenário superficial, reforçado pelos devaneios de quem comanda o País com medo do encontro do azul com o vermelho, perdemos algo muito importante, que está além das cartilhas: perdemos o olhar sobre quem está vivendo o desemprego, sobre quem (mesmo sem estar no caixote da esquerda ou da direita) está se impondo no ambiente de trabalho como mulher; sobre quem luta diariamente pelo respeito a si mesmo como idoso; sobre quem conta o dinheiro do mês para estar em dia com os impostos e não sonegar; sobre quem empreende sem ser o perfil perfeito do empreendedor; sobre quem procura o primeiro estágio; sobre quem veste as máscaras que pode para tentar ser visto na multidão que se esmaga entre inúmeras e diferentes necessidades. Perdemos, portanto, as várias histórias e pessoas que nos formam. Assim, nos perdemos em nós mesmos e nos deixamos representar unicamente.
 
 
Em seu mais recente livro, “O perigo de uma história única”, a autora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie aborda justamente a questão dos estereótipos e o risco de nos basearmos apenas neles. Como ela bem diz, o problema não é que eles existam - muitas vezes os estereótipos fazem sentido - o problema é que são incompletos. O perigo, portanto, que com todo respeito a ela reforço aqui, é o de nos darmos por satisfeitos com as mensagens do senso comum ou das figuras prontas, sem nenhuma margem. Porque temos muitas margens, muitos contornos a serem considerados, sobretudo, em um País imenso e tão desigual. 
 
 
Além de uma boa leitura, o livro de Chimamanda nos permite a análise de que, assim como fazemos na vida ao julgarmos conhecer tudo sobre o outro, podemos permitir na política a condução dos estereótipos a projeções sociais que emperram nosso progresso, já que se limitam ao que `parece ser necessário`. No cotidiano político, é possível ver essas barreiras em quaisquer que sejam os lados. Enquanto os partidos não se abrirem para quem de fato existe com toda a pluralidade dessa existência, continuaremos falando para nós mesmos. 
 
 
Mulheres, por exemplo, com todo o protagonismo que exercem, podem querer discutir o que quiserem sem necessariamente precisarem estar filiadas ao partido A ou C. E mesmo se filiada, essa mulher poderia ouvir outra colega de sigla diferente e, assim, ouvir a si mesma e às nossas condições de combatentes neste mundo. Uniríamos força, ideias, mesmo que distintas. O feminismo não pode ser seletivo e presente somente enquanto somos pares da mesma fórmula partidária. As diferenças são louváveis, mas só o respeito garante o louvor.
 
 
Certamente que por divergências ideológicas, partidos podem e naturalmente têm agendas opostas e destoantes, sobretudo os partidos sérios têm histórias que os levaram a determinadas lutas e causas, porém, isso não impede - ainda mais na atualidade em que necessitamos de representatividade plural - que uma sigla possa discutir demandas sem estar vinculada obrigatoriamente às correntes de uma única atuação, que possa se reinventar e estar atenta às transformações da sociedade e às novas necessidades que se apresentam e não podem ser simplesmente ignoradas. Sobretudo quando falamos em governo, os assuntos devem ser de todos e estaremos sempre aprendendo. Não podemos ter padrinhos exclusivos que queiram unicamente falar sobre temas tão amplos, que abarcam condições culturais, sociais, históricas muito específicas. O mesmo risco se dá ao reproduzirmos as frentes nacionais das siglas em territórios com funcionamento próprios e totalmente diferentes. Pretender aplicar essas máximas partidárias, sem qualquer estudo de contexto, nas bases locais, nos municípios, é irresponsabilidade. Aplicar políticas públicas ou ideais com seriedade também depende do quanto tais são de fato aplicáveis em diferentes lugares e com diferentes públicos, necessidades, características.
 
 
É importante enxergar que nem todos seguem as mesmas diretrizes ou correspondem à caixinha em que estão colocados. E que não ser caricato pode ser a chave de saída para todo o desconforto de um Brasil separado, dividido, em eterno flaXflu. Precisamos de políticas que incluam de fato todos e não somente quem ‘vota como eu voto.’ Vamos nos ouvir e atravessar os estereótipos para chegar a um lugar melhor.
 

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Raquel Loboda Biondi

Jornalista formada pela PUC-SP. Foi repórter do Jornal de Jundiaí, cobriu política até 2016. Atualmente é assessora legislativa na Câmara Municipal de Jundiaí.

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