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Opinião

Os ciclos que vivemos e nosso momento ‘despatriado’

Os ciclos que vivemos e nosso momento ‘despatriado’
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Quero acreditar que vivemos em ciclos e que, amargamente, agora, estamos imersos em uma onda desacreditada, intolerante, restrita, mas que passará em favor de uma nova onda iluminada, crítica e esclarecida a ser formada para suceder esse seu oposto atual.

De modo bem simplista, quero acreditar que possamos fazer essa análise - de que talvez precisemos aceitar os ciclos que historicamente nos movem para ver sentido na dificuldade em conviver com o retrocesso. Os movimentos antagônicos estão na arte, no cinema, na moda, nas produções diversas; estão no contexto das reformas políticas, religiosas e sempre estiveram, sempre se alimentaram para que transformações fossem possíveis, no entanto, também deixaram dor, feridas e ainda deixam.

Foi necessário viver períodos medianos para termos, em seguida, escolas de pensadores modernistas, o que não impediu, porém, o retorno de movimentos conservadores em várias fases da história. Tomo a liberdade de unir tantos conceitos para pensar que vivemos uma onda de atraso, um momento, especificamente no Brasil, em que o descrédito a tudo nos deixa perdidos.

Atraso no sentido de voltarmos atrás, de querermos aquilo que supostamente já teríamos superado mas que agora nos parece a solução.

Independentemente da existência de razão para que este cenário exista (pois muita coisa se cria e ‘compramos’ a criação), é fato que não se acredita mais na democracia, nas instituições democráticas, nos direitos humanos, nos discursos progressistas, na própria humanidade. Falo naturalmente em linhas gerais, consciente de que há quem mantenha coerência e resista à regressão.

No entanto, de modo genérico e reforçado no senso comum, o que se criou nos últimos anos foi uma narrativa de estarmos à deriva, sem termos ninguém para confiar, sejam nos elos de autoridade política ou nos mais pessoais, familiares.

Talvez por essa razão, sempre caímos no discurso de um novo ‘salvador’, de uma única figura que, sozinha ou amparada nos pilares opostos àqueles que nos antecederam, irá resolver nossas mais variadas aflições. O problema é que se não tivermos confiança neste novo ‘salvador’ - que poderia ser um presidente da República ou um guru ‘charlatão’ - continuaremos perdidos e essa falta de sentimento de pertencer, acreditar, ser ouvido, nos abre espaço para muitos outros cenários, sobretudo violentos.

Faço essa reflexão diante dos massacres ocorridos nos últimos dias, sejam em Suzano ou na Nova Zelândia, ou outros cotidianos aos quais nem sempre temos acesso: em cada canto um desejo mundial de todos fecharem suas portas.

As decisões que nos levam a esse caminho tão individual estão também ligadas a essa sensação de estarmos despatriados, desamparados, esquecidos e perdidos. Em um País tão desigual como o nosso, a violência não é uma novidade infelizmente, porém assassinatos em massa, armas em escolas e atiradores não eram parte de uma realidade comum como passam a ser hoje. Sabemos que não há uma única razão, um único culpado, mas trago a reflexão de como esse clima de desconfiança geral, de descrédito, intolerância, polarizações, ódio, somado a uma era das redes, da supervalorização da imagem, da perfeição, da vida sem gargalos e angústias, de gerações criadas sem que possam lidar com a rejeição, a frustração e o tédio, nos trazem um cenário propício para novas manifestações de violência, do qual somos parte. Na série da Netflix, ’MindHunter’, há uma passagem que nos permite essa reflexão nos Estados Unidos, pois entre as empenhadas formas, ligadas à psicologia, de policiais norte-americanos tentarem compreender os assassinatos em série e o comportamento desses assassinos surgidos no início da década de 1970 (que, claro, envolvem diversas conclusões e elementos pontuais), havia também a avaliação de um contexto social e político que ‘desamparava’ os seus à época - escândalos do governo, o caso ‘Watergate’, os próprios crimes deste porte que ganhavam visibilidade em jornais e traziam à sociedade aqueles, até então, eventualmente marginalizados. Em uma democracia, a falta de confiança em figuras que nos representam afeta a autoconfiança da própria sociedade, afeta a relação entre termos algum controle sobre a emancipação de todos e permite que, pelas diversas razões pessoais, outras figuras também queiram tomar esse controle. Acredito que possamos fazer um paralelo com o que vivemos hoje no País no sentido deste contexto confuso e desacreditado que certamente pode influenciar nas relações que temos e nas novas formas de manifestação de todos.

Se não existimos perante os olhos daqueles que nos governam, também procuraremos outros meios de nos mostrar relevantes, sejam de maneiras honradas ou infelizmente agressivas e criminosas. Penso que tanto nossa tendência cíclica nos movimentos de poder - também descrita por Nicolau Maquiavel em ‘O Príncipe’ - e o contexto conturbado sem norte que vivemos podem, infelizmente, nos levar ainda a caminhos mais trágicos.

Que possamos, portanto, entender nosso papel nessa sociedade, o papel de nossos políticos e quais exemplos eles podem oferecer para evitarmos tanta violência. Que possamos interferir nessa onda atual de modo que recuperemos figuras que nos incentivem.

Temos que pedir por elas, clamar por lideranças que façam diferente e algumas delas já estão aí, basta percebermos, abrirmos os olhos.

Esse poder está em nossas mãos, nas mãos da mídia, das entidades civis.

É o poder de não reproduzirmos preconceitos, não darmos força para a agressão, não estimularmos o uso das armas, não odiarmos os nossos diferentes. De sermos cuidadosos nas palavras, nas mensagens que queremos passar.

A sociedade se faz por todos nós e podemos, juntos, antecipar, aos poucos, nossa próxima onda, de amor, empatia e acolhida.

Autor

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Raquel Loboda Biondi

Jornalista formada pela PUC-SP. Foi repórter do Jornal de Jundiaí, cobriu política até 2016. Atualmente é assessora legislativa na Câmara Municipal de Jundiaí.

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