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Opinião

Relativizar é retroceder: nossos problemas são muitos e tão graves quanto a corrupção

Relativizar é retroceder: nossos problemas são muitos e tão graves quanto a corrupção
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O tempo que vivemos no Brasil nos pede paciência, cautela, atenção ao mesmo passo que desperta manifestos, doses altas de indignação e espantos diários com o que se vê, lê e prolifera nas redes.

Não é pra menos: andamos pra trás em medidas que não se respaldam mais na guerra eleitoral formada entre esquerda e direita.

Andamos pra trás em diversos aspectos que já não se justificam na polarização de campanha para impressionar.

Porém ainda há quem veja tudo o que acontece como um pontapé para a famosa pergunta: mas e o outro lado que fez isso ou aquilo? Relativizarmos sempre, além de não fazer sentido, nos faz legitimar o retrocesso, sobretudo, em questões que não necessariamente se resolviam (até aqui) apenas com bases ideológicas e sim científicas ou factuais.

Se para tudo passarmos a olhar com o vício do `esquerda versus direita`, de fato participaremos ativamente das perdas diárias em políticas públicas que nos afetam mesmo quando, em pior condição do que o relativismo, tapamos os olhos e não as percebemos.

Os movimentos pendulares talvez façam mesmo parte da democracia que construímos, e não só no Brasil como no mundo: novos governos talvez se elejam ao se contrapor aos anteriores que por inúmeras razões tenham saturado seu público e, portanto, as visões distintas para determinadas políticas naturalmente vão existir na vigência das diferentes curvas deste ciclo; porém há aspectos que necessariamente precisam estar desvinculados do A ou B ou do jogo político porque simplesmente respondem a dados estatísticos, a riscos evidentes, à força das pesquisas e da ciência que, ao longo das mudanças de governos, se mantêm a duras penas, no desafio de se reforçarem relevantes mesmo sem investimentos maiores para isso.

Não é aceitável que, sob qualquer que seja o discurso político ‘vestido’ de ideologia, desprezemos os resultados que já alcançamos embasadamente.

No mínimo, precisamos questionar as razões para que não seja mais obrigatório o uso da cadeirinha às crianças nos carros, por exemplo.

Ou que o desmatamento da Amazônia - ainda que interesse aos negócios de alguns - tenha impacto mundial e sua permissão declarada já não condiz com a atualidade, é grave, é criminosa.

Que o aquecimento global não está em folhetins de Marx ou de Adam Smiths.

Que o planeta se transforma por nossas ações e os dados de instituições nos norteiam neste sentido.

Por quê legislar ou decretar ou mandar e desmandar sobre o que já se estabeleceu como medida de segurança eficiente? A causa é própria ou deve ser de todos?

Fazermos críticas a todos os lados é mais do que razoável, é necessário: o senso crítico não deveria ter cor.

Mas relativizar é outro mundo - é justamente não ver a crítica sobre o que se defende, porque o lado opositor sempre terá feito mais e pior sem que haja uma análise de fato profunda sobre isso.

Fazer vista grossa aos problemas reais de cada governo que elegemos só nos envolve ativamente nos passos lentos da nossa evolução como País.

E quando falo em evolução é justamente aquela que todos adoram cobrar quando pedem melhores condições de transporte, de serviços de saúde ou educação.

Tudo está relacionado.

Nosso problema não é somente a falta de investimento.

Tão grave quanto a corrupção são as omissões, o desleixo, as desigualdades, o olhar para o próprio umbigo, o não conhecimento sobre os sistemas públicos, o oportunismo pré-eleitoral, as mentiras nas redes sociais, a falta de atenção com o que de fato somos e fazemos. 

Todos nós, eleitores e governantes, deveríamos entender que fazemos juntos um País.

Infelizmente, não é o cenário que temos.

Que os governos antagônicos possam fazer de fato melhor por nós, que essa competição seja digna do jogo democrático, pautada em propostas e seriedade com os problemas a serem resolvidos.

Porém, ainda continuamos a esperar e, se optarmos pela cegueira, contribuiremos para que os gargalos se arrastem ou só cresçam.

Perdemos muito.

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Raquel Loboda Biondi

Jornalista formada pela PUC-SP. Foi repórter do Jornal de Jundiaí, cobriu política até 2016. Atualmente é assessora legislativa na Câmara Municipal de Jundiaí.

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