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Opinião

Vivemos em modo de sobrecarga. Passou o tempo de mal vermos o autocuidado.

Vivemos em modo de sobrecarga. Passou o tempo de mal vermos o autocuidado.
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Há uma tendência de pensamento, ainda socialmente enraizada, de que o cuidado sobre nós mesmos vem do outro ou de fora. Talvez somente com o caminho próprio e os passos da trajetória de cada um, consigamos perceber que não é bem assim. Cada um terá seu tempo para perceber, mas tomo a liberdade de já adiantar essa reflexão de que o autoconhecimento é a chave de solução para boa parte dos nossos conflitos e de que o cuidado maior consigo mesmo só pode e deve vir de dentro, o que esbarra não somente no que queremos cuidar em nós, mas no que pode dentro de nós afetar a vida dos outros.
 
Não somente na esfera privada, como também no ambiente político e coletivo, para além da prática real de amor próprio (que cura muitas feridas e carências por sinal), cuidar de si é um exercício de cidadania, é contribuir para ambientes melhores, é evitar confrontos que não são dos outros (alguns podem ser, mas todos não), é se defender e, somente assim, de fato proteger. Muitas das nossas expressões para o mundo e para as pessoas ao redor estão ligadas à relação que temos com nós mesmos: como olho para mim, como me coloco na vida, no trabalho, em casa, com os meus e com os demais? Como me exercito, como cuido dos alimentos e dos meus? O que faço na minha trajetória para resolver o que me incomoda? O quanto me disponho a mudar para que esses incômodos também se transformem e não incomodem mais nem a mim nem a ninguém? 
 
O que escrevo aqui não é novidade, sobretudo no auge das buscas por meios de autoajuda que vivemos, na imensidão de oferta de livros e autores que tratem dessa questão, no caos vivido por essa pandemia que nos faz refletir sobre nosso cuidado com a própria saúde e, em consequência, com a dos demais. Porém, reforço essa análise diante da resistência de muitos de nós em ainda esperar do externo a solução para tudo - dos problemas da vida privada aos da cidade, País e mundo, o que já mencionei aqui em colunas anteriores.
 
São inúmeras as razões de existência da nossa busca, tão humana, por salvadores - porque estão associadas às crenças que recebemos ou construímos ao longo da vida. Mas são muitas também as evidências de sobrecarga deste mundo que vivemos hoje e dessa procura por resolução desassociada do papel de nós mesmos neste processo que nos fazem questionar tais crenças já não sustentáveis. Somado a elas ainda temos o velho olhar sobre as fragilidades e o cansaço como sensações negativas, como defeitos e temos a cobrança ainda insistente da sociedade e também nossa de que temos que dar conta de tudo e que o mundo tem que dar conta de nós. Não. Temos que procurar meios de viver bem com nós mesmos e, naturalmente, faremos o bem e o nosso melhor para o nosso redor. 
 
Se cuidarmos da saúde física e mental própria, por exemplo, evitaremos não somente a sobrecarga de serviços públicos e privados de saúde, mas a falsa e equivocada ideia de que sempre teremos que ter alguém para nos servir ou amparar, o que geralmente causa pressões e desconfortos emocionais em tantos grupos e inversões de papéis até mesmo na política.
 
Estamos sempre insatisfeitos com tudo sem olhar para as raízes disso dentro de nós. O que digo aqui não é para amenizar a responsabilidade que governos devem ter, famílias devem ter, mas apenas pra dizer que todos têm sua função num ideal de sociedade equilibrada que tanto queremos. Infelizmente, só cobramos do outro ou então promovemos uma autocobrança também prejudicial porque não somos heróis.
 
Sobretudo, se pensarmos na mulher que, apesar de toda sua força, historicamente sempre foi inserida socialmente no mundo com o peso contraditório a carregar de cuidar de todos e precisar ser protegida. Ainda que hoje tenhamos tantas discussões e novos olhares, a mulher ainda é julgada se diz não ao que também julgam ser suas obrigações com os demais ou é julgada se encontra tempo para cuidar de si, para olhar para as suas próprias necessidades, o que é totalmente legítimo e necessário para todos nós. 
 
Claro que aqui não estou falando de amparos específicos que pessoas em diferentes condições possam fisicamente precisar. Estou falando de todos nós, privilegiados, que temos saúde plena e meios sociais de buscar olhar para si. Ter esse privilégio também não deve ser mal visto porque ele pode ser a chave para contribuições individuais mais benéficas e empáticas aos que estão próximos de nós. 
 
O mundo que vivemos está saturado, inclusive, pelo discurso motivacional que sufoca, pelos cases de sucesso dos outros que não são necessariamente bons para todo mundo, pela ineficiência batendo à porta de tantos serviços, pela supervalorização da perfeição na autoimagem - algo tão explorado pelas redes sociais - pelo padrão veementemente reforçado de que devemos ser iguais. Tudo isso nos contrapõe forçadamente àquela ideia que tanto adoramos de que precisamos de algo extra ao nosso olhar pra dentro para nos resolvermos. Porque por mais que façamos leituras sobre o autoconhecimento, ele só existe se o fizermos verdadeiramente. Ainda depositamos nos outros o que cabe totalmente a nós mesmos: olhar profundamente para o espelho e quebrá-lo se for necessário, reconstruí-lo com o que nos satisfaz de forma positiva: autocuidado, amor próprio e alegria como inevitável resultado dessa junção.
 
Em A Sociedade do Cansaço, o autor coreano Byung-Chul Han aborda justamente os novos desafios desses tempos de sobrecarga, de busca excessiva pelo ser bem-sucedido, pelas formas de controle social que vivemos e que não são mais ligadas à sociedade disciplinar e repressora considerada por Michel Foucault, mas sim à corrida pela alta produtividade e à nossa escravidão por buscar reconhecimento social. Ele aborda uma espécie de violência neural que comprovadamente esclarece muitos sintomas da ansiedade cada vez mais crescentes. 
 
Diante dessa realidade evidente e as contradições de cuidarmos do outro para sermos cuidados, temos que incentivar e aplaudir as práticas, quaisquer que sejam elas, de fonte de amor próprio para nossos amigos, familiares, entes queridos e até mesmo pessoas distantes. Que sejamos produtivos para além da corrida dita por Chul Han, mas também para nós mesmos, para nossas potencialidades sem a cobrança de que precisamos ser bons em tudo. Quanto mais cada um de nós se conhecer e se sentir realizado consigo mesmo - sem ter de provar ao mundo e aos outros e sem ter de pedir proteção - mais seremos sensíveis às causas de todos, ao quanto podemos contribuir e ao quanto, em alguns casos, podemos recuar. Veremos o quanto é urgente cuidarmos de nós para, então, cuidarmos do outro. Precisamos evitar a sobrecarga de tudo e de todos.
 
Não é fácil olhar para si, mas é necessário, sobretudo, para não contribuirmos com as amarguras de uma sociedade já repleta de seus gargalos a enfrentar. 
 
Vamos fazer nossa parte, seja na prevenção do contágio de uma pandemia quanto na busca diária por bem-estar próprio, por respeito a si mesmo e, consequentemente, ao outro, ao ambiente, à humanidade. 
 

Autor

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Raquel Loboda Biondi

Jornalista formada pela PUC-SP. Foi repórter do Jornal de Jundiaí, cobriu política até 2016. Atualmente é assessora legislativa na Câmara Municipal de Jundiaí.

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