O fascínio global pelos doramas há muito tempo deixou de ser apenas um nicho nas redes sociais para se consolidar como um motor econômico e cultural de proporções gigantescas. Não é à toa que a Universidade Yonsei, uma das instituições mais tradicionais da Coreia do Sul, resolveu juntar forças com a própria Netflix para dissecar esse fenômeno. No evento “K-Culture Explained”, sediado no auditório Gakdangheon no campus de Sinchon, figurões da academia, do streaming e do governo sentaram para debater algo que vem mudando a geografia das viagens internacionais: o “OTT Tourism”. A ideia central é investigar como o consumo frenético de conteúdo sul-coreano nas plataformas digitais está arrastando multidões de turistas para o país.
Aproveitando o início das aulas do programa internacional de verão da Yonsei — uma iniciativa clássica que rola desde 1985 e atrai mais de 2.400 universitários estrangeiros anualmente —, o encontro focou justamente na conexão entre a tela e a vida real. Han Jung-hoon, diretor da K-Entertech Hub, detalhou como as narrativas que consumimos se transformam em experiências urbanas tangíveis para os fãs. O debate foi encorpado por Kim Mi-hoo e Lee Kang-i, diretores de marketing e de merchandising de produtos da Netflix, que abriram o jogo sobre as estratégias usadas para fazer com que essas produções atravessem fronteiras tão rápido. O professor Chung Seung-hoon, da Universidade Estadual da Califórnia, também puxou a análise para a evolução do cinema coreano e da Netflix, rastreando a rede de influência que vai de sucessos viscerais aos romances mais açucarados. A conversa culminou em uma mesa redonda de peso, contando inclusive com Cha Hyuk-jin, da Organização de Turismo da Coreia, consolidando o entendimento de que exportar cultura hoje é, basicamente, importar pessoas.
A Anatomia do Sucesso na Tela
Na prática, o que alimenta toda essa engrenagem acadêmica e turística é a capacidade dessas produções de fisgar a audiência com tramas que misturam melodrama, comédia e críticas sociais de um jeito muito particular. O catálogo da Netflix funciona como a grande vitrine desse movimento, oferecendo um cardápio variado que justifica o porquê de tanta gente querer cruzar o mundo para viver um pouco daquela estética.
Temos produções recentes e de tom mais maduro como O Amor Volta para Casa (2024). A trama foge do clichê adolescente ao mostrar um cara que faliu, divorciou e sumiu do mapa, apenas para ressurgir anos depois podre de rico para a ex-esposa e a filha. Com um elenco de peso que inclui Ji Jin-hee e Son Na-eun, a série segura a atenção pela dinâmica familiar quebrada. Outro hit absoluto é Rainha das Lágrimas (2024), que joga luz sobre o desgaste e o possível renascimento do casamento entre um cara de origem humilde (Kim Soo-hyun) e a herdeira milionária da empresa onde ele bate ponto (Kim Ji-won). É o puro suco das crises conjugais embaladas em cenários luxuosos.
Recomeços, Elites e Romances de Outras Fronteiras
Para quem curte a vibe de recomeços e o clássico enemies to lovers, Médicos em Colapso (2024) acerta em cheio. A série junta Park Hyung-sik e Park Shin-hye como dois ex-rivais do colegial que viraram profissionais de sucesso, mas que acabam se esbarrando no fundo do poço de suas vidas. É um retrato bem honesto sobre o esgotamento provocado por uma vida resumida a trabalho e estudo, algo que ressoa muito além da Coreia. Já se a pegada for algo mais tenso e focado em disparidade social, Hierarchy (2024) entrega um drama adolescente ambientado na escola mais exclusiva do país, onde apenas 0,01% da nata da sociedade estuda, trazendo novos rostos como Roh Jeong-eui e Lee Chae-min.
Mas esse fluxo de popularidade asiática não se restringe apenas à Coreia. O C-Drama (drama chinês) Amor Oculto (2023) furou a bolha e virou um dos títulos mais elogiados do streaming ao contar a história super leve e nostálgica de uma garota (Zhao Lusi) que cai de amores pelo melhor amigo preguiçoso do irmão mais velho dela.
Identidades Trocadas e Mistérios
Voltando aos queridinhos sul-coreanos, misturar romance com pitadas de investigação é uma fórmula que nunca falha. Em Parceira Suspeita, acompanhamos um promotor turrão (Ji Chang-wook) e uma estagiária caótica (Nam Ji-hyun) que acabam enrolados num caso de assassinato enquanto tentam lidar com a atração inevitável entre eles.
E, claro, as comédias românticas de erro de identidade continuam reinando absolutas para gerar engajamento. Pretendente Surpresa (2022) é o exemplo de manual: a protagonista vai num encontro às cegas no lugar da amiga rica, só para descobrir que o date é o próprio CEO arrogante da empresa em que trabalha (Ahn Hyo-seop). Por fim, a pressão estética, uma discussão fortíssima na Ásia, ganha contornos pop em Beleza Verdadeira (2020), acompanhando a estudante Lim Ju-kyung. Ela domina técnicas absurdas de maquiagem para esconder suas inseguranças profundas e, no processo, vira a “deusa” do colégio.
No fim das contas, seja debatendo o impacto mercadológico nos anfiteatros da Universidade Yonsei ou maratonando episódios de madrugada, fica evidente que o entretenimento asiático criou uma linguagem universal. Eles não estão apenas vendendo histórias de amor e mistério; estão embalando e exportando um estilo de vida que o resto do mundo está mais do que disposto a comprar.